03/07/2014

Para esclarecimento da Becky


Se fosse morrer hoje à noite já saberia há sete dias e duas horas que ia morrer hoje à noite.

Se realmente morresse hoje à noite, e sei que vou morrer, não avisava ninguém. Ligava à minha mãe e perguntava: “Já me puseste o dinheiro na conta? Não te esqueças que compro o passe amanhã.”. Punha uma foto de perfil nova no Facebook, uma a rolar os olhos. Assim, quando as pessoas tivessem recebido a notícia da minha morte, visitariam a minha página e eu estaria a rolar-lhes os olhos. Alguns, quem sabe, até comentariam a fotografia, do género “estarás sempre presente, amiga <3” e eu reviraria os olhos a isso também.
Se fosse morrer hoje à noite, inscrevia-me em aulas de yoga, numa piscina e num ginásio. Por duas razões: uma; um maior número de pessoas ficaria chocado com a minha morte sem nunca ter ido a nenhuma aula. Uma pessoa morta é sempre um choque, pensariam, coitada. Duas, quando morresse as pessoas iam achar que eu era um ser humano saudável e com bons hábitos. Diriam “tinha uma saúde excelente!” que é sempre algo agradavelmente obtuso de se ouvir num velório.
Se esta noite morresse, teria passado os sete últimos dias a ler a Ilíada e a escrever o meu nome em cada página. Tirava muitas selfies com o computador, alguém as veria. Faria todos as possíveis para que as pessoas tivessem material suficiente para chorar. Seria boazinha para toda a gente para terem a sensação de que teria sido benéfica para a sociedade. Roubaria na Primark e faria os possíveis para ser apanhada, queria ter cadastro na polícia. Quantas mais vezes o meu nome e número de Cartão de Cidadão estivessem registados melhor. 
E na hora, na hora exacta antes da minha morte estaria a trincar um pastel de nata frio num café aberto até tarde. Perguntaria ao empregado se não lhe fazia muita diferença ver-me morrer e independentemente da resposta, morreria com metade do pastel no pratinho de loiça branca. 

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