01/06/2014

O Assalto III



A mulher morena empurrou a pesada porta de vidro.

O frio dos bancos é igual ao frio desapegado das cunhas das moedas.
As maçanetas, os puxadores, os balcões, a luz dos ecrãs. As pessoas são frias dentro dos bancos, acredita-se até que a sua temperatura baixe o equivalente a 1,6 graus Celsius (34,8 graus Fahrenheit, temperatura de Wall Street). 

Ao entrar no banco, sentem-se os pêlos enriçar com o frio plástico do ar condicionado emprestado dos anos 90.
A mulher morena, que seguimos com a câmara oculta do leitor, vira a cara inesperadamente, num movimento pouco natural. A razão desta reacção imprevista: do degelo da banca e das transações soa uma voz quente, vibrante e galática:

"Todos para o chão".
Quatro segundos de um silêncio memorável, e depois:
"Já"

Não oculto ao leitor que se trata de um assalto. A mulher morena obedeceu com prazer à diretiva do ladrão, deslizando o corpo sobre o soalho ao mesmo ritmo a que o assaltante proferia a ordem de duas letras. Os restantes habitantes sazonais do banco demoraram um pouco mais a cumpri-la, mas finalmente, e no espaço de cinco segundos, todos aqueciam o chão gelado com o calor dos seus corpos.
A mulher nota que algum resignado não se baixou. A câmara do leitor foca o assaltante empunhando uma pistola. Foca somente a pistola. Milésimo de segundo. Tiro. E quem não se quis baixar não se voltará a levantar. Era poeta, o morto.

A mulher morena pensa que viu alguém morrer pela primeira vez, assistia simultaneamente a um assalto e a um assassínio. Assistia com satisfação bucólica, como quem não vê um bom espetáculo há muito tempo. Sentiu-se ferver contra o soalho. Acordara.

A mulher morena fixa o assaltante pela primeira vez, e contém uma gargalhada a custo. O que falou é gordo, o que matou é magro. Os Bucha e Estica dos furtos. Discutem entre si enquanto se movem comicamente pela galeria bancária.

A mulher percorre os restantes reféns com o olhar. Cataloga: Um homem idoso que segura com a mão esquerda a bolsa caqui que leva à cintura; Um rapaz negro e assustado que evita determinantemente contacto visual com o morto; Dois gestores de conta, um homem e uma mulher, colados ao chão, abraçando-se fraternalmente naquela hora bíblica; O morto, que já não conta. E ela própria, a mulher, delirante.

A câmara do leitor foca os ladrões. Nota-se que andam a mando, discutem nervosamente.
Subitamenteo magro dirige-se aos gestores de conta. É-lhes apontada uma arma à fonte, a mesma arma que matou.

“Levantem-se. Queremos que abram o cofre.”

O gestor e a gestora que mal se aguentam de pé, balbuciam. Não sabem abrir o cofre.
Os assaltantes trocam um rápido olhar de desespero. O gordo pergunta aos gestores de conta se estão a gozar com a cara dele. Diz que não acredita. Mas no fundo acredita. A arma treme-lhe nas mãos entre o homem e a mulher.

No clímax da acção, a mulher morena ergue-se num pulo inesperado.
A pistola faz um ângulo de 50º desde a testa dos gestores ao peito da mulher morena.
Ela sorri, conseguiu o que queria. Fala suavemente e sem medo:

“Eu sei abrir o cofre.”

As suas palavras ressoaram na galeria como um televisor com o volume demasiado alto.
A mulher sentiu os olhares dos reféns nas suas costas e rosto. A admiração espelhada nas caras querubinas dos ladrões divertiu-a mais que nunca.

“Ela está a mentir, julga que somos alguns fedelhos.” Disse o magro ao gordo. Mas a esperança brilhava inequívoca nos seus olhos inexpressivos.
O gordo segredou alguma coisa ao ouvido suado do outro e depois ambos encolheram os ombros. Ainda de arma apontada à mulher morena, o magro perguntou:

“Sabes o código?”

“Não.”

“Então?” E depois para o gordo: “A gaja está a fazer de nós parvos”

“Dêm-me uma das pistolas.” Pede a mulher, sorrindo.

O gordo ri-se nervosamente. “Esta nunca ouviu falar de cofres à prova de bala”

“Dê-me a pistola, confiem em mim.”
A mesma calma decisiva na voz.
“Não é que tenham muitas opções, ao que vejo.”

A câmara do leitor oscila rapidamente entre a mulher sorridente e os ladrões perdidos.
Evidentemente, estes cedem. Uma das armas é entregue à mulher, que a segura como a um filho. A outra é-lhe insistentemente apontada ao peito.

“Como a um filho”, pensa a mulher enquanto se dirige ao cofre, numa sala ao fundo da galeria.

Subitamente pára. A galeria é encimada por uma cúpula verdadeiramente pirosa. A mulher estanca-se percisamente ao centro.

“Porque é que parou?” Perguntou inutilmente um dos assaltantes.

A câmara do leitor procede aos seguintes movimentos:

1.    Plano da mulher no centro da galeria bancária como uma santa numa catedral.

2.    Panorâmica em slow motion dos reféns ainda ajoelhados no soalho. São os devotos.

3.    Close-ups das faces dos dois ladrões. Estáticos, incrédulos. Ateus a assistir a um milagre.

4.    Foco alargado da cúpula do banco.

Tiro.
Mulher morena caída no centro da galeria. Uma auréola escarlate, de um brilho puro que serve de pano de fundo para o seu corpo sacro contrasta com o marfim do soalho.


Depois, o cofre abriu-se.

Sem comentários: